O governo federal apresentou oficialmente uma estratégia de peso para blindar a rede pública de atendimento contra os impactos cada vez mais evidentes das oscilações do clima e do aquecimento global. O Ministério da Saúde revelou, na quarta-feira (26), durante um evento do Conass realizado em Brasília, o Plano de Preparação e Resposta a Emergências em Saúde Pública associadas ao El Niño 2026-2027, conhecido como AdaptaSUS. O pacote de medidas tenta colocar ordem na casa diante da constatação de que a alteração nos regimes de chuva e temperatura traz riscos diretos à população.

Riscos mapeados e vulnerabilidades

A pasta federal reconhece sem rodeios que o avanço das temperaturas e eventos extremos pressionam os postos e hospitais. Entre as principais ameaças listadas no documento estão o aumento de morbidade, mortalidade e a sobrecarga generalizada no atendimento aos cidadãos. A gestão federal pontuou que o cenário exige respostas integradas e que levem em conta as desigualdades sociais, já que comunidades vulneráveis e com menor acesso à infraestrutura acabam sofrendo o impacto de forma muito mais pesada.

O principal risco para a saúde e para os serviços de saúde relacionados à mudança do clima é o potencial de aumento da ocorrência de doenças (morbidade), de óbitos (mortalidade), e de ampliação da demanda pelos serviços de saúde

Eixos de atuação e metas de longo prazo

Para tentar conter os danos, o planejamento está estruturado em cinco frentes principais de atuação: governança federativa com Sala de Situação de Emergências Climáticas, gestão interna, separação de recursos e kits de assistência farmacêutica, mobilização da Força Nacional do SUS com capacidade de deslocamento em até 48 horas, e organização de protocolos técnicos específicos para cada bioma do país. De forma estrutural, o AdaptaSUS fixa 27 metas e 93 ações práticas com prazo de execução estipulado até 2035.

Dentro das ações de segurança hídrica voltadas para regiões que sofrem com a estiagem, a Fundação Nacional de Saúde firmou contrato para a entrega de 18,8 mil cisternas espalhadas por 397 municípios de sete estados, movimentando um montante de R$ 226,6 milhões para melhorias sanitárias.

Ferramentas de monitoramento e o cenário do El Niño

O monitoramento da crise climática vai contar com o uso conjugado de tecnologias como o Painel Nacional de Excesso de Calor, o VigiAR e o GeoRisk do Cemaden, além de centros especializados espalhados por oito cidades brasileiras. Os registros oficiais de saúde também serão integrados para garantir detecção precoce de surtos. O planejamento ainda olha com atenção para a Amazônia, organizando equipes e Unidades Básicas de Saúde Fluviais para alcançar áreas de difícil acesso.

Até 2027, o fenômeno El Niño é classificado como forte e pode atingir o patamar muito forte já em setembro, com janela crítica prevista entre outubro deste ano e março de 2027. Os efeitos variam conforme a região, trazendo seca e queimadas no Norte e Centro-Oeste, calor e estiagem no Nordeste, instabilidade e ondas de calor no Sudeste, além de temporais severos com risco de inundações na região Sul.