A alimentação do pai antes mesmo da concepção deixa marca no corpo do filho. É o que aponta um estudo feito em Ribeirão Preto por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP): quanto mais alimentos ultraprocessados o homem consome, maior o peso e o acúmulo de gordura do bebê ao nascer.

A revista Nutrition Research publicou o trabalho em outubro de 2023. Foram 43 trios formados por pai, mãe e recém-nascido, todos atendidos na rede pública de saúde da cidade. A gordura extra apareceu em pontos específicos, como a coxa e a região suprailíaca — quadro que funciona como fator de risco para problemas metabólicos e cardiovasculares mais tarde, na vida adulta.

A dieta masculina sai do ponto cego

Historicamente, ciência e medicina concentram a atenção na alimentação e na saúde da mãe durante a gestação e depois do parto. Daniela Sartorelli, que coordenou o estudo e dá aula na USP, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, destaca outro ponto: é o primeiro trabalho em humanos a ligar de forma direta o consumo paterno desses produtos à composição corporal do bebê.

Salgadinho, biscoito recheado e refrigerante são exemplos clássicos de ultraprocessado. São formulações industriais que juntam aditivos químicos sintéticos e substâncias extraídas de alimentos, quase sem ingrediente integral na composição. Entre os pais participantes, esses produtos responderam por 30% da energia total consumida, em média, com embutidos e bebidas açucaradas no topo da lista.

O que muda no espermatozoide

A hipótese das pesquisadoras é que esse padrão alimentar prejudique a formação dos espermatozoides, agindo antes da concepção. Dietas carregadas desses produtos criam um ambiente pró-inflamatório no corpo e comprometem a qualidade do esperma. Também alteram a expressão de genes que serão transmitidos ao bebê.

O fenômeno tem nome: epigenética. Os hábitos alimentares do pai ligam ou desligam a atividade de certos genes. Mariana Rinaldi Carvalho, coautora do trabalho e bolsista de doutorado da FAPESP, cita o IGF-II, gene herdado só do pai e essencial para o crescimento do feto. Trabalhos anteriores já mostravam que a alimentação paterna altera bioquimicamente esse gene no esperma por um processo chamado metilação.

Do lado materno, efeito contrário

O estudo encontrou o oposto quando olhou para as mães. O consumo de ultraprocessados por elas até a 16ª semana de gestação apareceu associado a menor peso, menor altura e menor circunferência da cabeça do bebê. A explicação provável está na formação da placenta, que exige muitos nutrientes justamente ausentes nesses produtos.

O peso ao nascer funciona como um preditor de saúde para a vida toda. Bebês que nascem com peso muito baixo ou muito alto correm mais risco de morrer e de desenvolver doenças não transmissíveis: diabetes tipo 2, complicações cardiovasculares e alguns tipos de câncer entram na lista. A qualidade da alimentação do pai — e não apenas o peso dele — pesa nessa conta.